Data de publicação: 29 de setembro de 1877Atenção: Os dois volumes respeitantes a teologia que integram esta extensa obra, estará em breve publicado na integra, neste fórum.
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Depois resta seguir os links no final de cada publicação.OS NAZARENOS, OS OFITAS E OS DRUSOS MODERNOS. Trataremos nos dois capítulos seguintes das mais importantes seitas secretas cristãs - as chamadas “Heresias”, que se difundiram entre o primeiro e o quarto séculos de nossa era.
Lançando rapidamente a vista nos ofitas e nos nazarenos, passaremos às suas cisões que ainda existem na Síria e na Palestina, sob o nome de drusos do Monte Líbano, e próximo a Basra ou Bassorah, sob o nome de mandeus, ou Discípulos de São João. Todas essas seitas têm uma conexão imediata com o nosso assunto, pois pertencem à família cabalística, tendo outrora abraçado a secreta “Religião da Sabedoria” e reconhecido como Supremo o Deus dos Mistérios do Inefável Nome. Dando notícia dessas numerosas sociedades secretas do passado, iremos compará-las com outras tantas sociedades modernas. Concluiremos com uma rápida análise dos jesuítas, e desse venerável pesadelo da Igreja católica romana - a Franco-maçonaria moderna. Todas essas fraternidades antigas e modernas - excetuada a moderna Franco-maçonaria - estiveram e estão mais ou menos relacionadas com a Magia - tanto prática como teoricamente, e todas elas - sem exceção da Franco-maçonaria - foram e ainda são acusadas de demonolatira, blasfêmia e imortalidade. Uma após outra, a maré do tempo engolfou as seitas dos primeiros séculos, não deixando subsistir senão uma única em sua integridade primitiva. Esta única existe, ainda ensina a doutrina de seu fundador, ainda exemplifica sua fé em obras de força. As areias movediças que engoliram todas as outras conseqüências da agitação religiosa dos tempos de Jesus, com seus relatos, relíquias e tradições, lhe forneceram terra firme. Expulsos de sua terra natal, seus membros encontraram refúgio na Pérsia, e hoje ainda o viajante ansioso pode conversar com os descendentes diretos dos “Discípulos de João”, que ouviram, nas margens do Jordão, o “homem enviado por Deus” por quem foram batizados e em quem acreditaram. Esse povo curioso, que conta com cerca de 30.000 almas, é erroneamente chamado de “CrisTãos de São João”, mas, na verdade, deveria ser conhecido por seu antigo nome, nazareus, ou pelo novo mandeus.
A designação que se lhes dá de Cristãos é totalmente errônea. Eles não acreditam em Jesus como Cristo, nem aceitam sua expiação, não aderem à sua Igreja e não o reverenciam suas “Escrituras Sagradas”. Nem cultuam ao Deus-Jeová dos judeus e dos cristãos, circunstância que prova naturalmente que seu fundador, João Batista, também não lhe prestava culto. E se assim for, que direito tem ele a um lugar na Bíblia, ou na galeria de retratos dos santos cristãos? Além disso, se Ferho era seu Deus, e se ele foi “um homem enviado por Deus”, deve ter sido enviado pelo Senhor Ferho, e foi em seu nome que ele batizou e pregou. Ora, se Jesus foi batizado por João, a conclusão a que se chega é que ele foi batizado de acordo com a fé do Batista; portanto, também Jesus acreditava em Ferho, ou Faho, como o chamam; tal inferência parece ser corroborada pelo seu silêncio em relação ao nome de seu “Pai”. E por que pareceria ridícula a hipótese de que Faho não é senão uma das muitas corruptelas de Fho, ou Fo, que é o nome pelo qual os tibetanos e os chineses chamam o Buddha? No Norte do Nepal, Buddha é invocado com muito mais freqüência pelo nome Buddha. O livro de Mahâvansa mostra como o trabalho de proselitismo do Budismo se iniciou bastante cedo no Nepal; e a história ensina que os monges budistas invadiram a Síria e a Babilônia no século anterior à nossa era, e que Buddhasp (Nosdhisattva), o pretenso caldeu, foi o fundador do Sabianismo ou batismo. Qual era o credo dos verdadeiros batistas, al-Mughtasilah, ou nazarenos, explicamo-lo noutras partes, pois eles são os mesmos nazarenos de quem já tanto falamos, e cujo Codex citamos. Perseguidos e ameaçados de aniquilação, eles encontraram refúgio na comunidade nestoriana, permitindo-se assim o serem arbitrariamente classificados como cristãos, mas, assim que a oportunidade se ofereceu, separaram-se e hoje, passados vários séculos, não merecem sequer nominalmente a denominação. Que sejam assim chamados, não obstante, pelos autores eclesiásticos, não é difícil de compreender. Eles conhecem muito bem o Cristianismo primitivo para se ignorá-los por completo, pois testemunhar contra eles com suas tradições, sem o estigma da heresia, viria destruir a confiança no que eles podem dizer.
Não se pode negar-lhe o legado da doutrina batista; suas tradições não apresentam um única falha. O que eles ensinam hoje, seus antecessores ensinaram na própria época em que fizeram sua aparição na história. Eles são os discípulos daquele João que anunciou o advento de Jesus, que o batizou e que declarou que ele (João) não era digno de desamarrar as sandálias . Quando ambos - o Mensageiro e o Messias - estavam no Jordão, e quando o mais velho consagrava o mais jovem - seu próprio primo, também, humanamente falando - os céus se abriram e o Próprio Deus, na forma de uma pomba, desceu num raio de luz sobre o seu “Amado Filho”! Se esse relato é correto, como podemos explicar a infidelidade dos nazarenos sobreviventes? Longe de acreditar que Jesus era o Filho Único de Deus, eles na verdade afirmaram aos missionários persas, que, no século XVII, foram os primeiros a revelá-los aos europeus, que o Cristo no Novo Testamento era “um falso mestre”, e que o sistema judeu, assim como o de Jesus (?), vieram do reino das trevas ! Quem o saberia melhor do que eles? Onde se podem encontrar testemunhas vivas mais fiéis? Os clérigos cristãos nos querem impingir um Salvador ungindo e anunciado por João, e os discípulos desse mesmo Batista, desde os primeiros séculos, estigmatizaram esse personagem ideal como um impostor, e a seu putativo Pai, Jeová, como “um Deus espúrio”, o Ialdabaôth dos ofitas! Infelizmente para o Cristianismo, o dia virá em que algum destemido e honesto erudito persuadirá seus pares mais velhos a lhe permitirem traduzir o conteúdo dos livros secretos e compilar suas antigas tradições! Uma estranha ilusão faz com que alguns autores pensem que os nazarenos não têm nenhuma outra literatura sagrada, nenhuma outra relíquia literária do que as quatro obras doutrinárias, esse curioso volume repleto de Astrologia e Magia que eles são instados a ler atentamente no pôr-do-Sol (domingo).
Essa busca da verdade conduz-nos, de fato, a caminho tortuosos. Muitos são os obstáculos que a astúcia eclesiástica colocou no caminho de nossa descoberta da fonte primeira das idéias religiosas. O Cristianismo está em julgamento, e assim tem sido desde que a ciência se sentiu bastante, forte para agir como um Promotor Público. A presente obra expõe uma parte do processo. Quantas verdades há nessa Teologia? Através de que seitas elas tem sido transmitida? Donde provém ela primariamente? Para respondê-lo, devemos traçar a história da Religião Mundial, tanto através das seitas cristãs como através das de outras grandes subdivisões religiosas da raça, pois a Doutrina secreta é a Verdade, e a religião que a conservou de forma menos adulterada é a que mais se aproxima do divino.
ETIMOLOGIA DE IAÔ.O primeiro esquema (Encontra-se no cap. IV) - o dos ofitas -, desde o início, difere da descrição dada pelos padres, na medida em que torna Bythos, a profundidade, uma emanação feminina, e lhe atribui um lugar que corresponde ao de Pleroma, mas numa região muito superior, ao passo que os padres nos asseguram que os gnósticos davam o nome de Bythos à Causa Primária. Como no sistema cabalístico, ele representa o vazio ilimitado e infinito no qual está oculto nas trevas o motor Primeiro Desconhecido de tudo. Ele envolve como um véu: em suma, reconhecemos novamente o "Shekinah" do Ain-Soph. Tomado separadamente, o nome de `IAO, Iao, assinala o centro superior, ou antes o presumido em que se supõe que o Desconhecido possa permanecer. Em torno de Iao, corre a legenda CEMEC EIAAM ABPA∑A≡, "O eterno Sol-Abrasax" (o sol espiritual central de todos os cabalistas, representando em alguns diagramas destes últimos pelo círculo de Tiphereth).
Dessa região de insondável Profundeza surge um círculo formado de espirais, que, na linguagem do simbolismo, significa o grande ciclo, composto de ciclos menores. Enrolada em seu interior, de modo a seguir as espirais, repousa a serpente - emblema da sabedoria e da eternidade - o Andrógino Dual: o ciclo que representa Ennoia, a Mente Divina, e a Serpente - o Agathodaimôn, o Ophis - a Sombra da Luz. Ambos eram os Logoi dos ofitas; ou a unidade como Logos que se manifesta como um princípio duplo de bem e mal, pois, de acordo com suas concepções, esses dois princípios são imutáveis, e existem desde a eternidade, e continuarão a existir para sempre.
Este símbolo explica a adoração por esta seita da Serpente, como o Salvador, enrolada em torno do pão Sacramental, ou de um Tao. Como unidade, Ennoia e Ophis são o Logos; quando separados, um é Árvore da Vida (espiritual), o outro, a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Por conseguinte, descobrimos Ophis incitando o primeiro par humano - a produção material de Ialdabaôth, mas que devia seu princípio espiritual a Sophia-Akhamôth - a comer o fruto proibido, embora Ophis represente a Sabedoria Divina.
A Serpente, a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, e a Árvore da Vida, são símbolos transplantados do solo da Índia. A Arasamaram, a árvore baniana, tão sagrada para os hindus, desde que Vishnu, durante uma de suas encarnações, repousou sob sua enorme sombra e aí ensinou filosofia e ciência à Humanidade, é chamada de Árvore do Conhecimento e Árvore da Vida. Sob a protetora ramada dessa rainha das flores, os gurus ensinam a seus pupilos as primeiras lições sobre a imortalidade e os iniciam nos mistérios da vida e da morte. Na tradição caldaica, os Yava-ALEIM do Colégio Sacerdotal passam por ter ensinado aos filhos dos homens como se tornarem iguais as eles. Até o presente, Foh-tchou, (Foh-tchou significa literalmente, em chinês, o senhor de Buddha, ou o mestre das doutrinas de Buddha-foh.) que vive em seu Foh-Maëyu, ou templo de Buddha, no topo do "Kuen-lun-shan", a grande montanha, produz seus maiores milagres religiosos sob uma árvore chamada, em chinês, de Sung-Ming-Shu, ou a Árvore do Conhecimento e a Árvore da Vida, pois a ignorância é morte, e só o conhecimento dá imortalidade. Esse maravilhoso espetáculo ocorre de três em três anos, quando uma enorme multidão de budistas chineses se junta em peregrinação no local sagrado.
Ialdabaôth, o "Filho das Trevas" e o criador do mundo material, habitava o planeta Saturno, que o identifica ainda mais com o Jeová judeu, que era o próprio Saturno, de acordo com os ofitas, que lhe recusam o nome sinaítico. De Ialdabaôth emanam seis espíritos que habitam, respetivamente, com seu pai, os sete planetas. Estes são: Tsabaôth - Marte; Adonaios - Sol; Iao - Lua; Eloaios - Júpiter; Astaphaios - Mercúrio (espírito da água); e Horaios - Vênus, espírito do fogo.
Em suas dadas funções e descrição, os sete planetas são idênticos aos Sapta-lokas hindus, os sete locais ou esferas, ou os mundos superiores ou inferior, pois representam as sete esferas cabalísticas. Para os ofitas, eles pertencem às esferas inferiores. Os monogramas desses planetas gnósticos são igualmente budistas, diferindo estes últimos embora em pequena escala, dos das usuais "casas" astrológicas.
O diagrama nazareno, exceto numa troca de nomes, é idêntico ao dos gnósticos, que, evidentemente, dele extraíram suas idéias, acrescentando umas poucas designações derivadas dos sistemas de Basilides e Valentino. Para evitar repetições, apresentaremos os dois quadros em paralelo.
Assim, descobriremos que, na Cosmogonia nazarena, os nomes de seus poderes e genii estão nas seguintes relações com os dos gnósticos:
NAZARENO PRIMEIRA TRINDADE Senhor FERHO - a Vida que não é Vida - o Deus Supremo. A Causa que produz a Luz, ou o Logos in abscondito. A água de Jordanus Maximus - a água da Vida, ou Ajar, o princípio feminino. Unidade numa Trindade, encerrada em ISH AMON.
SEGUNDA TRINDADE (A manifestação da primeira) (idem) 1. Senhor MANO - o Rei da Vida e da Luz – Rex Lucis. A Primeira VIDA, ou o homem primitivo.
2. Senhor Jordão - manifestação ou emanação de Jordanus Maximus – as águas da graça. Segunda VIDA.
3. O Pai Superior - Abathur. Terceira VIDA. Essa Trindade produz também uma díada - Senhor Lehdoio, e Phtahil, o genius (o primeiro, uma emanação perfeita; o segundo, uma emanação imperfeita).
Senhor Jordão - "o Senhor de todos os Jordão". manifesta NETUBTO (Fé sem Obras).
GNÓSTICO-OFITAPRIMEIRA UNIDADE NUMA TRINDADE IAÔ - o Inefável Nome da Divindade Desconhecida - Abraxas, e o "Abraxas, e o "Sol Espiritual Eterno", Unidade encerrada na Profundeza, Bythos, princípio feminino - o círculo ilimitado, no qual repousam todas as formas ideais. Dessa Unidade emana a
SEGUNDA TRINTADE 1. Ennoia - mente.
2. Ophis, o Agathodaimôn.
3. Sophia - Andrógina - sabedoria, que, por sua vez - fecundada pela Luz Divina -, produz Cristos e Sophia-Akhamôth (um, perfeito, aoutra, imperfeita), como uma emanação.
Sophia Akhamôth emana Ialdabaôth - o Demiurgo, que produz a criação material e sem alma. "Obras sem Fé (ou graça).
Ademais, os sete genii planetários ofitas, que emanam um do outro, reaparecem na religião nazarena, sob o nome de "Sete demônios impostores", ou estrelares, que "enganarão a todos os filhos de Adão". São eles: Sol; Speritus Venereus (o Espírito Santo, em seu aspeto material), a mãe dos "sete estrelares mas dispostos", que correspondem ao Akhamôth gnóstico; Nebu, ou Mercúrio, "Um falso Messias, que depravará o antigo culto de Deus"; SIN (ou Luna, ou Shuril); KHÎYÛN (ou Saturno); Bel-Júpiter; e o sétimo, Nerig, Marte (Codex Nazaraeus, I. p.55).
O Cristos dos gnósticos é o chefe dos sete Aeons, os sete espíritos de Deus segundo São João; os nazarenos têm também seus sete genii ou bons Aeôns, cujo chefe é Rex Lucis, seu Cristo. Os Sapta-Rishis, os sete sábios da Índia, habitam os Sapta-Puras, ou as sete cidades celestiais.
Nas jóias ofitas de King, encontramos o nome de Iao repetido e amiúde confundido com o de Ievo, ao passo que este último representa simplesmente um dos genii antagônicos a Abraxas. A fim de que tais nomes sejam tomados como idênticos com o nome de Jeová judeu, não tardaremos em dar a explicação dessa
palavra. Parece-nos muito estranho que tantos eruditos arqueólogos tenham tão pouco se empenhado para mostrar que há mais de um Jeová, e que o nome teve origem com Moisés. Iao é certamente um título do Ser Supremo, e diz respeito apenas parcialmente ao Inefável Nome; mas ele não se originou com os judeus, nem foi propriedade única destes. Mesmo se aprazou a Moisés conferir esse nome ao "Espírito" tutelar, a suposta divindade nacional protetora do "povo escolhido de Israel", não há nenhuma razão possível para que outras nacionalidades O recebam como o Deus Supremo e Único. Mas negamos sumariamente tal pretensão. Além disso, há o fato de que Yâho ou Iao era um "Nome dos mistérios" desde o início, pois jamais foram empregados antes da época do Rei Davi. Anteriormente, poucos ou nenhum nome próprio havia sido composto com iah ou yah. Parece antes que Davi, tendo estado entre os tirenses e os filisteus (2 Samuel), deles tenha trazido o nome de Jeová. Ele nomeou Zadok sumo-sacerdote, e é dai que provêm os zadoquias ou saduceus. Viveu e reinou em primeiro lugar em Hebron, Habir-on ou cidade de Kabir, onde os ritos dos quatro (deuses dos mistérios) eram celebrados. Nem Davi, nem Salomão reconheciam a Moisés ou à sua lei. Eles aspiravam construir um templo a Iao, como as estruturas erigidas por Hirão a Hércules e Vênus, Adon e Astartê.
Diz Fürst: "O antiquíssimo nome de Deus - Yâho (...) que em grego se escreve 'Iaw, parece, à parte sua etimologia, ter sido um antigo nome místico da divindade suprema dos semitas. Foi assim que ele foi passado a Moisés, quando este teve a sua iniciação em HOR-EB - a caverna - sob a direção de Jethro, o sacerdote kenita ou cainita de Madiã. Na antiga religião dos caldeus, vestígios da qual se acham entre os neoplatônicos, a divindade suprema entronizada acima dos sete céus, que representa o princípio de luz espiritual Nous (Nous, a designação dada por Anaxágoras à Divindade Suprema, foi tomada do Egito, onde o chamavam NOUT) e que é concebida como um demiurgo, (Por um pequeno número, todavia, pois os criadores do universo material sempre foram considerados como divindades subordinadas ao Deus Supremo.) chamava-se 'Iaw, que era, como o Yâho hebreu, misteriosa e indizível (...) e cujo nome só era comunicado aos iniciados (...) Os fenícios tinham um deus supremo, cujo nome era trilítero (literatrina) e secreto (...) e que era 'Iaw.
Para compreender o sentido real e primitivo do termo 'IAO e a razão pela qual ele se tornou a designação para a mais misteriosa de todas as divindades, precisamos buscar a sua origem na fraseologia figurativa de todos os povos primitivos. Devemos, antes de mais nada, recorrer, para nossa informação, às fontes mais antigas. Num dos Livros de Hermes, por exemplo, afirma-se que o número DEZ é a mãe da alma, e que a vida e a luz estão nele unidos. Pois "o número 1 (um) nasce do espírito, e o número 10 (dez) da matéria", "a unidade fez o DEZ, o DEZ, a unidade".
Uma vez que reconhecemos o fato de que, entre todos os povos da mais alta Antigüidade, a concepção mais natural da Primeira Causa que se manifesta em suas criaturas - as quais não podiam deixar de lhe atribuir toda a criação - era a de uma divindade andrógina; de que o princípio masculino era considerado como o espírito invisível vivificante, e o feminino, a mãe Natureza, poderemos então compreender por que essa misteriosa causa veio a ser inicialmente representada (na escrita pictográfica, talvez) como a combinação do alfa e do Ômega dos números, um decimal, e depois como IAÔ, um nome trilítero, que contém em si uma profunda alegoria.
IAÔ, em tal caso, significaria - etimologicamente falando - o "Alento da Vida", gerado ou produzido entre um princípio natural masculino ereto e um princípio feminino como a forma de um ovo; pois, em sânscrito, as significa "ser", "viver ou existir", sendo sua significação original a de "respirar". "Foi com base nessa raiz", diz Max Müller, "em seu sentido original de `respirar', que os hindus formaram asu, "alento", e asura, o nome de Deus, que significa, seja o "alento", seja o doador do alento". Seu sentido é certamente este último. Em hebraico, "Iâh" e "Iâh" significa "vida". Cornélio Agripa, em seu tratado sobre a Preeminência da Mulher, mostra que a palavra Eva sugere uma comparação com os símbolos místicos dos cabalistas, tendo o nome da mulher uma afinidade com o inefável Tetragrammaton, o nome mais sagrado da divindade. Os nomes antigos tinham sempre uma consonância com as coisas que representavam. Em relação ao misterioso nome da Divindade em questão, a insinuação até aqui inexplicável dos cabalistas quanto à eficácia da letra H, "que Abarão retirou de sua esposa Sarah" e "colocou no meio de seu próprio nome", torna-se clara.
Os tempos mais sagrados dos hindus são os do Jagan-nâtha. Essa divindade é reverenciada por todas as seitas da Índia igualmente, e Jagan-nâtha é chamado de "Senhor do Mundo". Ele é o deus dos mistérios, e seus templos, que são muito numerosos em Bengala, têm todos a forma de uma pirâmide.
Não há nenhuma outra divindade que forneça tal variedade de etimologista quanto Yâho, nem um nome que possa ser pronunciado de maneira tão diversa. Foi apenas associando-o com os pontos massoréticos que os rabinos das épocas posteriores conseguiram transformar Jeová em "Adonai" - ou Senhor. Philo Byblius grafa-o em caracteres gregos como 'IEYΩ (IEVO). Theodoret diz que os samaritanos pronunciavam tal nome com 'Iaßé (Yabe), e os judeus Aïa; Diodorus afirma que "os judeus relatam que Moisés chamava seu Deus de "Iaϖ", o que a faria pronunciar como já indicamos - Iah-Ô. É com base na autoridade da própria Bíblia, por conseguinte, que afirmamos que antes de sua iniciação por Jethro, seu sogro, Moisés jamais ouviu a palavra Yâho. A futura Divindade dos filhos de Israel chama da pira ardente e dá Seu nome como "Eu sou o que sou", e especifica cuidadosamente que é o "Senhor Deus dos Hebreus" (Êxodo, III,18), não de outras nações. A julgar por seus próprios atos, através dos relatos judeus, temos dúvidas de que o Cristo, se tivesse surgido nos dias do Êxodo, seria bem recebido pela irascível Divindade sinaítica. Contudo, o "Senhor Deus", que se torna, segundo Sua própria confissão, Jeová apenas no sexto capítulo do Êxodo (versículo 3), vê sua veracidade posta em dúvida no Gênese, XXII, 9, 14, em cuja passagem revelada Abarão edifica um altar a Jehovh-Jireh.
Por conseguinte, pareceria natural estabelecer uma diferença entre o Deus dos mistérios 'Iaw, adotado desde a mais alta antigüidade por todos os que participavam do conhecimento esotérico dos sacerdote, e suas contrapartes fonéticas, tratadas com tão pouca reverência pelos ofitas e outros gnósticos. Tendo sido oprimidos, como o Azâzêl dos desertos, pelos pecados e iniqüidades da nação judaica, parece agora difícil para os cristãos terem que confessar que aqueles a quem consideravam aptos a considerar o "povo eleito" de Deus - seus únicos predecessores no monoteísmo - eram, até um período muito tardio, tão idólatras e politeístas quanto os seus vizinhos. Os sagazes talmudistas escaparam por longos séculos da acusação, escondendo-se atrás da invenção massorética. Mas, como em todas as outras coisas, a verdade veio por fim à luz. Sabemos agora que Ihoh, deve ler-se Yâhoh e Yâh, não Jeová. Yâh dos hebreus é exatamente o Iacchos (Baco) dos mistérios; o Deus "de quem se espera a libertação das almas - Dioniso, Iacchos, Iachoh, Iahoh, Iao". Aristóteles, portanto, estava certo quando disse: "Joh, era Oromazdes e Ahriman Pluto, pois Deus do céu, Ahura-Mazda, monta uma carroça que o Cavalo do Sol segue". E Dunlap cita Salmos, LXVIII, 4 que diz:
"Louvai-o por seu nome Yâh,
Que monta os céus a um cavalo".
e então que "os árabes representavam Iauk (Iach) por um cavalo. O Cavalo do Sol (Dionísio)". Iah é um abrandamento de Iah", explica ele. "h e h são intercambiáveis; assim como também, e se abranda em h. Os hebreus exprimem a idéia da VIDA tanto por um h quanto por um h; como hiah, `ser', hiah, `ser'; Iah, Deus da Vida, Iah, `Eu sou'". Podemos portanto repetir essas linhas de Ausônio:
"Os filhos de Ogyges chamam-me Baco; o Egito pensa que sou Osíris;
Os misianos chamam-me Phanaces; os indianos vêem-me como Dionísio;
Os ritos romanos fazem-me Liber; a raça árabe pensa que sou Adoneus;
Os lucanenses, o Deus Universal (...)"
E o povo eleito, Adónis e Jeová - poderíamos acrescentar.
Quão pouco se compreendeu a filosofia da antiga doutrina secreta, provam-nos as atrozes perseguições dos Templários pela Igreja, sob a acusação de adorarem o Demônio na forma de um bode - Baphomet! Sem aprofundar os antigos mistérios maçônicos, não há um só maçom - dentre os que sabem alguma coisa, que não esteja a par da verdadeira relação entre Baphomet e Azâzêl, o bode expiatório do deserto, cujo caráter e cujo significado foram inteiramente pervertidos nas traduções cristã. "Esse terrível e venerável nome de Deus", diz Lanci, bibliotecário do Vaticano, "através da pena dos glossários bíblicos, transformou-se num demônio, numa montanha, num deserto, num bode. Na Royal Masonic Cyclopaedia, de MacKenzie, o autor assinala com correção que "essa palavra deveria ser dividida em Azaz e El", pois ela "significa Deus da Vitória, mas é aqui empregada no sentido de Autor da morte, em contraste com Jeová, o Autor da vida; este último recebia um bode morto como oferenda". A Trindade hindu é composta de três personagem, que se podem converter numa única. A Trimûrti é una, e, em sua abstração, indivisível. No entanto, vemos que uma divisão metafísica tem lugar desde o início. Ao passo que Brahmâ, embora coletivamente represente os três, permanecendo sob o pano, Vishnu é o Dador da Vida, o Criador, o Preservador, e Shiva é o Destruidor, a divindade mortuária. "Morte ao doador da Vida, vida ao propiciador da Morte. A antítese simbólica é grande e bela", diz Bliddon. "Deus est Daemon inversus" - essa frase dos cabalistas torna-se agora clara. É apenas o intenso e cruel desejo de apagar o último vestígio das antigas filosofias, pervertendo-lhe o sentido, por medo de que os seus próprios dogmas não lhe sejam corretamente atribuídos, que impele a Igreja Católica a exercer uma tal perseguição sistemática contra os gnósticos, os cabalistas e mesmo os relativamente inocentes maçons.
Ai de nós! Quão pouco a divina semente, disseminada pelas mãos do humilde filósofo judeu, fincou raízes ou produziu qualquer fruto! Se aquele que verberou a hipocrisia, que lutou contra a prece pública, recriminando-lhe o exibicionismo inútil, pudesse lançar seu pesaroso olhar sobre a Terra, das regiões de beatitude eterna, veria ele que essa semente não caiu, nem num terreno estéril, nem à margem do caminho. Não, ela fincou fundas raízes no solo mais fértil; aquele enriquecido até a pletora pelo sangue e pela mentira humana.
O SIGNIFICADO DO NIRVANA. Desde o dia mesmo em que o primeiro místico encontrou os meios de comunicação entre este mundo das hostes invisíveis, entre a esfera da matéria e a do puro espírito, concluiu ele que abandonar essa misteriosa ciência à profanação do vulgo seria perdê-la. Abusar dela levaria a Humanidade a uma rápida destruição; seria o mesmo que fornecer bombas explosivas a um grupo de crianças em dar-lhes fósforos. O primeiro adepto iniciou apenas uns poucos selecionados, e guardou o segredo das multidões. Ele reconheceu seu Deus e sentiu que o grande Ser estava consigo. O "Âtman", o Si-Mesmo, o poderoso Senhor e Protetor, assim que o homem o conheceu como o "Eu sou", o "Ego Sum", o "Asmi", deu a prova de todo o seu poder àquele que era capaz de reconhecer a "voz do silêncio". Desde os dias do homem primitivo, descritos pelo primeiro poeta védico, até a nossa época moderna, não houve um único filósofo digno desse nome que não tenha conquistado, no santuário silencioso de seu coração, a grande e misteriosa verdade. Se era um iniciado, ele a aprendeu como uma ciência sagrada; se não, como Sócrates, que repetia a si mesmo, assim como a todos os seus colegas, o nobre preceito, "Ó homem, conhece-te a ti mesmo", conseguiu reconhecer seu Deus em si mesmo. "Sois deuses", diz-nos o rei salmita, e vemos que Jesus lembra aos escribas que a expressão "Sois deuses" se dirigia a outros homens mortais, e que ele reclamava para si o mesmo privilégio sem incorrer em qualquer blasfêmia. E, como um eco fiel, Paulo, embora afirmado que somos todos "o templo do Deus vivo", acrescenta cautelosamente que afinal de contas todas essas coisas são apenas para os "sábios", e que não é "lícito" falar delas.
Portanto, devemos aceitar o convite, e anotar simplesmente que mesmo na fraseologia bárbara e torturada do Codex nazaraeus, encontramos a mesma idéia. Como uma corrente subterrânea, rápida e clara, ela flui sem misturar sua pureza cristalina com as ondas lodosas e pesadas do dogmatismo. Entontramo-lá no Codex, assim como nos Vedas, no Avesta, no Abhidharma, tanto nos Sânkhua-Sûtras de Kapila como no Quarto Evangelho. Não podemos atingir o "Reino dos Céus" sem antes nos unir indissoluvelmente como nossa Rex Lucis, o Senhor Esplendor e da Luz, nosso Deus Imortal. Devemos primeiro conquistar a imortalidade e "tomar o Reino dos Céus pela força", oferecido ao nosso eu material. "O primeiro homem, tirado da terra, é terrestre; o segundo homem é o Senhor do céu (...) Vede, eu vos dou a conhecer um mistério", diz Paulo (I Coríntios, XV, 47,51). Na religião de Sâkya-Muni, que os eruditos comentadores se têm comprazido em considerar como puramente niilista, a doutrina da imortalidade é definida com muita clareza, não obstante as idéias européias, ou antes, cristãs, sobre o Nirvana. Nos livros sagrados jainistas de Pattana, o Gautama Buddha moribundo é assim interpelado: "Sobe ao Nirvi (Nirvana) saindo desse corpo decrépito ao qual foste enviado. Sobe à tua morada anterior, ó Abençoado Avatâra!" Isto nos parece o próprio oposto do Niilismo. Se Gautama é convidado a retornar à sua "morada anterior", e essa morada é o Nirvana, então é incontestável que a Filosofia Budista não ensina a aniquilação final. Assim como se pretende que Jesus apareceu a seus discípulos após a morte, do mesmo modo acredita-se ainda hoje que Gautama retorna do Nirvana. E se ele existe aí, tal estado não é um sinônimo de aniquilação.
Gautama, assim como todos os outros grandes reformadores, tinha uma doutrina para os seus "eleitos" e outra para as massas, embora o objetivo principal se sua reforma consistisse em iniciar a todos, na medida em que era permissível e prudente fazê-lo, sem distinção de castas ou riquezas, nas grandes verdades até então mantidas em segredo pela egoísta classe bramânica. Gautama Buddha foi o primeiro, na história humana, quem movido pelo generoso sentimento, reúne toda a Humanidade num único amplexo, convidando o "pobre", o "aleijado" e o "cego" à mesa do festival real, da qual excluiu aqueles que haviam até então se sentado a sós, em orgulhoso isolamento. Foi ele quem, como mão enérgica, abriu pela primeira vez a porta do santuário ao pária, ao decaído e a todos os "aflitos pelos homens" vestidos em ouro e púrpura, porém que eram amiúde mais dignos de piedade do que os proscritos a quem apontavam desdenhosamente o dedo. Tudo isso fez Siddhârtha seis séculos antes de outro reformador, tão nobre quanto bondoso, embora menos favorecido pela sorte, em outra terra. Se ambos, conscientes do grande perigo de fornecer a uma população inculta a espada de dois gumes do conhecimento que dá poder, deixaram na mais profunda sombra o quadrante mais interno do santuário, quem, familiarizado com a natureza humana, poderá censurá-los por isso? Mas, ao passo que um agiu por prudência, o outro foi forçado a adotar esse meio. Gautama deixou intacta a parte esotérica e mais perigosa do "conhecimento secreto", e viveu até a idade avançada de oitenta anos, com a certeza de ter ensinado as verdades essenciais, e de a elas ter convertido um terço do mundo; Jesus prometeu a seus discípulos o conhecimento que confere ao homem o poder de produzir milagres ainda maiores do que aqueles que ele fizera, e morreu, deixando apenas uns poucos homens fieis, a meio caminho do conhecimento, para lutarem com o mundo ao qual não podiam comunicar senão o que eles próprios conheciam pela metade. Mai tarde, seus seguidores desfiguraram a verdade ainda mais do que eles próprios o haviam feito.
Não é verdade que Gautama nunca ensinou qualquer coisa a propósito da vida futura, ou que ele negou a imortalidade da alma. Perguntai a qualquer budista inteligente quais são suas idéias sobre o Nirvana, e ele expressar-se-á como o fez o conhecido Wong Ching Foo, o orador chinês, agora em viagem a este país,
numa recente conversa conosco sobre o Niepang (Nirvana). "Esse estado", observou ele, "segundo todos entendemos, significa uma reunião final com Deus, que coincide com a perfeição do espírito humano por sua libertação final da matéria. É exatamente o contrário da aniquilação pessoal".
O Nirvana significa a certeza da imortalidade pessoal no Espírito, não na Alma, que, como uma emanação finita, deve certamente desintegrar suas partículas - um composto de sensações humanas, paixões e anseios por alguma espécie objetiva de existência - antes que o espírito imortal do Ego esteja completamente livre, e por conseguinte certo de não mais sofre qualquer forma de transmigração. E como pode o homem atingir esse estado, enquanto o Upâdâna, esse estado de anseio pela vida e mais vida, não desaparecer do ser senciente, do Ahamkara vestido, contudo, com um corpo sublimado? É o "Upâdâna", o intenso desejo, que produz a VONTADE, e é a vontade que desenvolve a força, e esta gera a matéria, ou qualquer objeto provido de forma. Assim, o Ego desencarnado, movido por esse desejo imortal que nele reside, fornece inconscientemente as condições de suas sucessivas autoprocriações em várias formas, que dependem de seu estado mental e de seu Karma, as boas e más ações de sua existência anterior, comumente chamadas de "mérito e demérito". Eis por que o "Mestre" recomendava a seus mendicantes o cultivo dos quatro graus de Dhyâna, o nobre "Caminho das Quatro Verdades", i.e., essa aquisição gradual da indiferença em face da vida ou da morte; esse estado de autocontenplação espiritual durante a qual o homem perde completamente de vista sua dupla individualidade física, composta de corpo e alma, e unindo-se com seu terceiro eu imortal, o homem real e celeste, mergulha, por assim dizer, na Essência divina, donde o seu próprio espírito procede como uma centelha oriunda de uma chama comum, Assim, o Arhat, o santo mendicante, pode alcançar o Nirvana quando ainda na Terra; e seu espírito, totalmente liberto dos entraves da "sabedoria psíquica terrestre e demoníaca", com a designa São Tiago, e sendo por natureza onisciente e onipotente, pode sobre a Terra, por meio simplesmente de seu pensamento, produzir os maiores fenômenos.
DA ANTIGUIDADE DAS RELIGIÕES.Exceto uns poucos arqueólogos imparciais que reconhecem um claro elemento budista no gnosticismo, assim como em todas as seitas efêmeras, pouco conhecimento temos de autores que, escrevendo sobre o Cristianismo primitivo, conferiram ao assunto a sua devida importância. Não temos fatos suficientes para, pelo menos, sugerir algum interesse nesta direção? Não aprendemos que já nos dias de Platão havia "brâmanes" - leia-se missionários budistas, samaneus, samãs ou shamans - na Grécia, e que num dado momento eles invadiram o país? Não mostra Plínio que eles se estabeleceram nas costas do Mar Morto, por "milhares de anos"? Fazendo o devido desconto ao exagero, restam-nos ainda vários séculos antes de nossa era como margem. E não é possível que sua influência tenha deixado marcas mais profundas em todas essas seitas do que geralmente se acredita? Sabemos que a seita jainista afirma derivar o Budismo de seus dogmas - esse Budismo que existia antes de Siddhârtha, mais conhecido como Gautama Buddha. Os brâmanes hindus, a quem os orientalistas europeus negam o direito de conhecer qualquer coisa a respeito de seu próprio país, ou de entender sua linguagem e seus registros melhor do que aqueles que nunca estiveram na Índia, com base no mesmo princípio pelo qual os judeus são proibidos, pelos teólogos cristãos, de interpretar suas próprias Escrituras -, os brâmanes, dizíamos, têm registros autênticos. E estes mostram que a encarnação do regaço da Virgem Avany do primeiro Buddha - Luz Divina - teve lugar alguns milhares de anos antes de Cristo, na ilha do Ceilão. Os brâmanes rejeitam a afirmação de que ele foi um dos avatâra de Vishnu, mas admite o surgimento de um reformador do Bramanismo nesse época. A história da Virgem Avany e de seu filho divino, Sâyamuni, está registrada em um dos livros sagrados dos budistas singaleses - o Culla-Niddesa; e a cronologia bramânica fica a grande revolução budista e a guerra religiosa, e o desenvolvimento subseqüente do Sâkya-muni no Tibete, na China, no Japão e em outros lugares, no ano 4.620 a.C.
É claro que Gautama Buddha, o filho do Rei de Kapila-vastu, e o descendente do primeiro Sâkya, através de seu pai, que era da casta guerreira, Kshatriaya, não inventou sua filosofia. Filantrópico por natureza, suas idéias foram desenvolvidas e amadurecidas quando ele ainda estava sob a tutela de Tîrthamkara, o famoso guru da seita jainista. Esta afirma que o Budismo atual era um ramo divergente de sua própria filosofia, e que ela é a única a congregar os poucos seguidores do primeiro Buddha, a quem se permitiu ficar na Índia, após a expulsão de todos os outros budistas, provavelmente porque haviam assumido algum compromisso, abraçando certas noções bramânicas. É curioso, para dizer o mínimo, que três religiões dissidentes e inimigas, como Bramanismo, Budismo e Jainismo, concordem tão perfeitamente em suas tradições e cronologias quanto ao Budismo, e que nossos cientistas dêem ouvidos apenas às suas próprias injustificadas e especulações e hipóteses. Se o nascimento de Gautama pode, com alguma razão, ser fixado por volta do ano 600 a.C., então os Buddhas precedentes devem ter algum lugar na cronologia. Os Buddhas não são deuses, mas simplesmente indivíduos protegidos pelo espírito de Buddha - o raio divino. Ou será que é porque, incapazes de sair da dificuldade pela ajuda apenas de suas próprias pesquisas, nossos orientalistas preferem suprimir e negar o todo, a atribuir aos hindus o direito de conhecer algo sobre sua própria religião e história? Estranha maneira de descobrir a verdade!
O argumento comum aduzido contra a pretensão jainista, no tocante a ser a fonte da restauração do antigo Budismo, de que o dogma principal desta última religião é oposto à crença dos jainistas, não resiste à análise. Os budistas, dizem nossos orientalistas, negam a existência de um Ser Supremo; os jainistas admitem um, mas protestam contra a afirmação de que "Ele" pode interferir no governo do universo. Os budistas não negam em absoluto tal coisa. Mas se algum erudito desinteressado pudesse estudar cuidadosamente a literatura jainista, nos milhares de livros preservados - os deveríamos dizer ocultos - em Râjputâna, Jaisalmer, em Pattan e outros lugares; e especialmente se ele pudesse apenas ter acesso aos mais velhos de seus volumes sagrados, descobriria uma perfeita identidade de pensamento filosófico, se não de ritos populares, entre os jainistas e os budistas. O Âdi-Buddha e o Âdinâtha (ou Âdisvara) são idênticos em essência e propósito. Mas, se seguirmos os traços dos jainistas, com seus reclamos quanto à possessão dos templos-cavernas mais antigos, e seus registros de um antigüidade quase incrível, dificilmente poderemos vê-los sob uma luz diferente daquela em que eles próprios se vêem. Devemos admitir com toda certeza que eles são os únicos verdadeiros descendentes dos primitivos proprietários da Índia antiga, desapossados por aquelas misteriosas hordas conquistadoras de brâmanes de pele clara que vemos, na aurora da história, surgir como os primeiros pioneiros nos vales do Jumnâ e do Ganges. Os livros dos Sravakas - os únicos descendentes dos Arhats, os jainistas primitivos, os eremitas nus das florestas de outrora, podaríamos lançar alguma luz talvez sobre muitas questões enigmáticas. Mas terão os nossos eruditos europeus, na medida em que seguem à sua própria política, tido jamais acesso aos volumes correto? Temos nossas dúvidas a esse respeito. Perguntai a qualquer hindu digno de fé como os missionários trataram os manuscritos que por má sorte caíram em suas mãos, e julgai então se podemos censurar os nativos por tentarem salvar da profanação os "deuses de seus pais".
OS CRISTÃOS E OS CRESTÃOS.
Os gnósticos cristãos surgiram por volta do início do século II, e justamente na época em que os essênios desapareceram misteriosamente, o que indica que eles eram os essênios, e, ademais, crististas puros, isto é, acreditavam no que um de seus próprios irmãos havia pregado, e o compreenderam melhor do que ninguém. Insistir em que a letra Iota, mencionada por Jesus em Mateus (V, 18), indicava uma doutrina secreta relativa aos dez Aeons, basta para demostrar a um cabalista que Jesus pertencia à Franco-maçonaria daqueles dias; pois "I", que é o Iota em grego, tem outros nomes em outras línguas; e é, como o era entre os gnósticos daqueles dia, uma senha, que significa o CETRO do Pai, nas fraternidades orientais que existem ainda hoje.
Mas no primeiros séculos, esses fatos, mesmo se conhecidos, foram propositadamente ignorados, e não apenas negados à opinião pública na medida do possível, mas veementemente negados sempre que o assunto vinha à baila. As denúncias dos padres tornaram-se mais amargas na proporção da verdade que procuravam refutar.
"Deduz-se daí" - escreve Irineu, queixando-se dos gnósticos - "que eles não aceitam nem as Escrituras, nem a tradição". Devemos, portanto, nos espantar, quando mesmo os comentadores do século XIX, tendo apenas uns poucos fragmentos dos manuscritos gnósticos para comparar com os volumosos escritos de seus caluniadores, foram capazes de detectar a fraude em quase todas as páginas? Quanto mais os gnósticos polidos e eruditos, como todas as suas vantagens da observação pessoal e do conhecimento dos fatos, compreenderam o estupendo esquema de fraude que estava sendo consumado diante de seus próprios olhos! Porque acusariam eles a Celso por afirmar que sua religião se baseava por completo nas especulações de Platão, com a diferença de que as doutrinas deste eram muito mais puras e racionais do que as deles, quando vemos Sprengel, dezessete séculos depois, escrevendo o seguinte? - "Não apenas pensavam eles [os cristãos] descobrir os dogmas de Platão nos livros de Moisés, mas, além disso, pesavam que, introduzindo o platonismo no Cristianismo, elevariam a dignidade dessa religião e a tornariam mais popular entre os pagãos."
Eles o introduziram tão bem que não apenas a Filosofia Platónica foi selecionada como uma base para a trindade, mas mesmo as lendas e as histórias míticas correntes entre os admiradores do grande filósofo - homenagem tradicional a todo herói digno de deificação - foram restauradas e utilizadas pelos cristãos. Sem ir para além da Índia, não tinham eles um modelos pronto para a "concepção miraculosa", na lenda de Perictionê, a mãe de Platão? A esse respeito, afirmava também a tradição popular que ela o havia concebido imaculadamente, e que o deus Apolo era seu pai. Mesmo a anunciação por um anjo a José "num sonho", os cristãos a copiaram da mensagem de Apolo a Ariston, esposo de Perictionê, de que a criança a nascer dela era filho desse deus. Assim também, afirma-se que Rômulo era filho de Marte e da virgem Réa Sílvia.
Tertuliano, de quem des Mousseaux faz a apoteose em companhia de seus outros semideuses, o vêem com olhos bem diferentes Reuss, Baur e Schwegler. A falacidade da afirmação e a inexatidão de Tertuliano, diz o autor de Supernatural Religion, são amiúde ostensivas. Reus caracteriza seu cristianismo como "âpre, insolent, brutal, ferrailleur. Carece de unção e de caridade, e às vezes mesmo de lealdade, quando se vê diante de uma oposição (...) Se no século II, todos os partidos, com exceção de alguns gnósticos, eram intolerantes, Tertuliano era o mais intolerante de todos"!
A obra iniciada pelos primeiros padres foi completada pelo bombástico Agostinho. Suas especulações supratranscendentais sobre a Trindade; seu diálogo imaginário com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e as revelações e as veladas alusões a seus ex-irmãos, os maniqueus, levaram o mundo a cobrir o gnosticismo de opróbrio, e lançou em profunda sombra a insultada majestade do Deus único, adorado em reverente silêncio por todos os "pagãos".
Eis por que toda a pirâmide de dogmas do Catolicismo romano repousa, não sobre provas, mas sobre suposições. Os gnósticos haviam colocado os padres na parede com muita habilidade, e a única salvação destes foi recorrer à fraude. Durante quase quatro séculos, os grandes historiadores quase contemporâneos de Jesus não tiveram a menor notícia seja de sua vida, seja de sua morte. Os cristãos espantam-se com uma omissão tão incompreensível do que a Igreja considera o maior evento da história universal.
A primeira e a mais importante seita de que ouvimos falar é a de Nicolaitenses, de quem João, no Apocalipse, faz a voz em sua visão dizer que odeia sua doutrina. Esses Nicolaitenses eram os seguidores, contudo, de Nicolau de Antioquia, um dos "sete" escolhidos pelos "doze" para distribuir os fundos comuns aos prosélitos de Jerusalém (Atos, II, 44, 45; VI, 1-5), algumas semanas, ou talvez meses, depois da Crucificação; e um homem "de bom nome, cheio de Espírito Santo e de sabedoria" (versículo 3). Parece, pois, que o "Espírito Santo e a sabedoria" vindos do alto garantiam tão pouco contra as acusações de "heresia", como se os "eleitos" dos apóstolos jamais os houvessem protegido.
Seria fácil descobrir que espécie de heresia era essa que ofendia, mesmo se não tivéssemos outras fontes de informação mais autênticas, nos escritos cabalísticos. A acusação e a natureza precisa da "abominação" figuram no segundo capítulo do Apocalipse, versículo 14, 15. O pecado era simplesmente - o matrimônio. João era "virgem"; vários padres atestam o fato com base na autoridade da tradição. Mesmo Paulo, o mais liberal e o mais nobre de todos, encontra dificuldades para reconciliar a posição de um homem casado, com a de um fiel servo de Deus. Há também "uma diferença entre um esposa e uma virgem". Esta última cuida "das coisas do Senhor", e a outra apenas "de como pode agradar ao esposo". "Se alguém julga agir de modo inconveniente para com a sua virgem (...) que se casem. Mas aqueles que, no seu coração tomou firme propósito (...) e tem a força de vontade, e assim decidiu (...) conservar sua virgem, esse procede bem". Portanto, aquele que se casa "age bem" (...) mas aquele que não a dá em casamento procede melhor ainda". "Estás ligado a uma mulher?" pergunta ele. "Não procures mulher. Não estás ligado a uma mulher". (27) E assinalando que, de acordo com seu julgamento, ambos serão mais felizes se não se casarem, acrescenta, como grave conclusão: "E julgo que possuo o Espírito de Deus" (40). Muito longe desse espírito de tolerância estão as palavras de João. Segundo sua visão, há "apenas cento e quarenta e quatro mil que foram resgatados da terra", "esses são os que não se contaminaram com mulheres: são virgens". Isso parece conclusivo; pois, exceto Paulo, nenhum desses primitivos Nazari, "apartados" e devotados a Deus, parece fazer uma grande diferença entre "pecado" com o relacionamento do matrimônio legal e a "abominação" do adultério.
Com tais opiniões e com tal estreiteza de espírito, é perfeitamente natural que esses fanáticos tenham começado por lançar essa iniqüidade como uma mácula à face dos irmãos, prosseguindo em suas acusações. Como já mostramos, é apenas Epifânio que dá minuciosos detalhes dos "toques" e outros sinais de reconhecimentos entre os gnósticos. Por outro lado, é absurdo acreditar que pessoas como os gnósticos - que, de acordo com Gibbon, eram os homens mais ricos, mais orgulhosos, mais polidos e mais sábios dentre os que "se chamavam cristãos" - fossem culpados das ações reprováveis e libidinosas com que Epifânio se compraz em acusá-los. Mesmo se eles fossem como esse "grupo de maltrapilhos, quase nus, de rostos ferozes", que Luciano descreve como os seguidores de Paulo, hesitaríamos em acreditar em tal infame história. É muito menos provável que homens que eram não apenas platônicos, mas também cristãos, tenham sido culpados de ritos tão absurdos.