Todas as grandes reformas religiosas foram puras em seu início. Os primeiros seguidores de Buddha, assim como os discípulos de Jesus, eram homens da mais alta moralidade. A aversão pelo vício experimentada pelos reformadores de todas as idades está comprovada nos casos de Sâkyamuni, Pitágoras, Platão, Jesus, São Paulo, Amônio Saccas. Os maiores líderes gnósticos - se tiveram menos sucesso - não foram menos virtuosos na prática, nem menos puros moralmente. Marcion, Basilides, Valentino eram famosos por suas vidas ascéticas. Os Nicolaitenses, que, se não pertenciam ao grande corpo dos ofitas, contavam entre as pequenas seitas que foram por ele absorvidas no início do século II, devem sua origem, como já mostramos, a Nicolau de Antioquia, "um homem de bom renome, cheio do Espírito Santo e de Sabedoria". Que absurda a idéia de que tais homens teriam instituído "ritos libidinosos"! Seria o mesmo que acusar Jesus de ter promovido os ritos similares que vemos praticados com tanta freqüência pelos cristãos medievais ortodoxos atrás da segura proteção dos muros monásticos.
O cristianismo dogmático e fabricado do período Constantino é simplesmente um rebento das numerosas seitas conflitantes, elas mesmas meias-castas, nascidas de pais pagãos. Cada uma delas poderia reivindicar seus representantes convertidos ao chamado corpo ortodoxo de cristãos. E como todo dogma recém-nascido tinha de ser aceito por maioria de votos, toda seita coloria a substância principal com a sua própria nuança, até o momento em que o imperador impunha ao mundo, como a religião de Cristo, essa miscelânea, de que ele evidentemente não entendia uma palavra. Fatigado por seus vãos esforços para aprofundar esse pântano insondável de especulações internacionais, incapaz de apreciar uma religião baseada na pura espiritualidade de uma concepção ideal, o Cristianismo entregou-se à adoração da força bruta representada pela Igreja edificada por Constantino. Desde então, entre os milhares de ritos, dogmas e cerimônias copiados do Paganismo, a Igreja só pode reivindicar uma única invenção, absolutamente original, a saber, a doutrina da condenação eterna, e um costume, o do anátema. Os pagãos rejeitavam a ambos com horror. "Uma execração é uma coisa temerária e terrível", diz Plutarco. "Por tal razão, a sabedoria de Atenas foi condenada por ter recusado a amaldiçoar Alcebíades [por profanação dos mistérios], quando o povo lhe pedia para fazê-lo; pois, ela era uma sacerdotisa de preces, não de maldições".
"Pesquisas aprofundadas mostrariam" - diz Renan - "que quase tudo no Cristianismo é mera bagagem trazida dos mistérios pagãos. O culto cristão primitivo nada é senão um mistério. Toda a política interna da Igreja, os graus de iniciação, o imperativo do silêncio, e a mesma de frases da linguagem eclesiástica, não têm outra origem. A revolução que sufocou o Pagamismo parece à primeira vista (...) uma ruptura absoluta com o passado (...) mas a fé popular salvou seus símbolos mais populares do naufrágio. O Cristianismo introduziu, de início, tão poucas modificações nos hábitos da vida privada e social que para muitos, nos séculos IV e V, é incerto se deve contá-los entre os pagãos ou entre os cristãos; muitos parecem ter trilhado um caminho indeciso entre os dois cultos." Falando mais adiante da Arte, que formou uma parte essencial da religião antiga, diz ele que "foi difícil quebrar uma de suas tradições. A arte cristã primitiva não passa, na verdade, de arte pagã em sua decadência, ou de natureza inferior. O Bom Pastor das catacumbas em Roma é uma cópia do Aristeu, ou do Apolo Nomios, que figura na mesma postura dos sarcófagos pagãos, e ainda traz a flauta de Pan no meio das quatro estações. Na tumba cristã do Cemitério de São Calixto, Orfeu encanta os animais. Noutro lugar, o Cristo como Júpter-Plutão, e Maria como Proserpina, recebem as almas que Mercúrio, portanto um elmo de largas bordas e trazendo na mão o caduceu do condutor de almas (psychopompos), lhes leva, na presença das três parcas. Pégaso, o símbolo da apoteose; Psychê, o símbolo da alma imortal; o Céu, personificado por um homem velho; o rio Jordão, e Vitória, representada em inúmeros monumentos cristãos."
Como já mostramos alhures, a comunidade cristã primitiva era composta de pequemos grupos espalhados por toda parte, e organizados em sociedades secretas, com senhas e sinais. Para evitar as incessantes perseguições de seus inimigos, eles eram obrigados a buscar segurança e a se reunirem em catacumbas abandonadas, em locais inacessíveis das montanhas, e em outros esconderijos seguros. Toda reforma religiosa depara, em seu início, com tais dissabores. Desde a sua primeira aparição, vemos Jesus e seus doze discípulos reunindo-se à parte, em refúgios seguros no deserto, e entre os amigos de Betânia. Se a cristandade não se tivesse composto de "comunidades secretas" desde o início, a história teria mais fatos para relatar sobre seu fundador e seus discípulos do que aqueles que agora dispõe.
É verdadeiramente surpreendente constatar a pouca importância que a personalidade de Jesus exerceu sobre seu próprio século. Renan mostra que Fílon, que morreu por volta do ano 50, e nasceu muitos anos antes de Jesus, vivendo na Palestina, onde a "boa nova" era pregada por todo o país, segundo os Evangelhos, jamais ouviu falar dele (Essa afirmação, infelizmente, é errada. Fílon, o judeu, residiu principalmente em Alexandria, "a morada favorita dos judeus cultos" (Yonge, The Works of Philo Judaeus, Prefácio), mas visitou Jerusalém pelo menos uma vez. N. do Org.) Josefo, o historiador, que nasceu três ou quatro anos após a morte de Jesus, menciona a sua execução numa breve sentença, e mesmo essas poucas palavras foram alteradas "por mão cristã", diz o autor da Vida de Jesus. Escrevendo no final do século I, quando Paulo, o erudito propagandista, conforme se alega, havia fundado tantas igrejas, e Pedro, estabelecido a sucessão apostólica, que a cronologia irinaico-euseviana pretende já contar com três bispos de Roma, Josefo, o cuidadoso enumerador e minucioso historiador mesmo das seitas mais insignificantes, ignora inteiramente a existência de uma seita cristã. Suetônio, secretário de Adriano, escrevendo na primeira quadra do século II, sabe tão pouco de Jesus ou de sua história a ponto de dizer que o Imperador Cláudio "baniu todos os judeus, que causavam contínuas perturbações, por instigação de um tal Chêstos", ou seja, Cristo, segundo podemos supor. O próprio Imperador Adriano, escrevendo ainda mais tarde, estava tão pouco impressionado com os dogmas ou com a importância da nova seita que, numa carta a Serviano, mostra acreditar que os cristãos eram adoradores de Serapis. "No século II", diz C. W. King, "as seitas sincréticas que haviam surgido em Alexandria, o berço do gnosticismo, encontraram em Serapis um tipo profético de Cristo como Senhor e Criador de tudo, e Juiz da vida e da morte". Portanto, ao passo que os filósofos "pagãos" jamais haviam considerado Serapis, ou antes a idéia abstrata que nele se encarnava, senão como uma representação da anima mundi, os cristãos antropomorfizaram o "Filho de Deus" o seu "Pai", não encontrando modelo melhor para ele do que o ídolo de um mito pagão! "Não há dúvida" - assinala o mesmo autor - "que a cabeça de Serapis, marcada como é sua face por uma grave e pensativa majestade, forneceu a primeira idéia para as imagens convencionais do Salvador". (King, The Gnostic, etc. p.68 [p. 161-62 na 2ª ed.]. Em Symbolical Language of Ancient Art and Mythology, de R. Payne Knight, Serapis é representada com longos cabelos, "penteados para trás e dispostos em madeiras que caem sobre seus ombros como os da mulher. Todo seu corpo está sempre envolto num traje que lhe desce até os pés" (§ CXLV). Essa é a imagem convencional de (Jesus) Cristo.)
Nas notas tomadas por um viajante - cujo episódio com os monges do Monte Athos foi mencionado acima - encontramos que, durante sua juventude, Jesus havia tido freqüentes contatos com os essênios pertencentes à escola pitagórica, e conhecidos como koinobioi. Acreditamos que Renan se equivoca quando afirma dogmaticamente que Jesus "ignorava por completo os nomes de Buddha, Zoroastro e Platão"; que ele jamais havia lido um livro grego ou budista, "embora mais de um elemento de sua doutrina procedesse do Budismo, do Parsismo e da sabedoria grega". Isso é conceder um meio-milagre, e dar muita oportunidade ao acaso e à coincidência. É um abuso de privilégio quando um autor, que afirma escrever fatos históricos, tira deduções convencionais de premissas históricas, e então chama sua biografia de - uma Vida de Jesus. Assim como qualquer compilador das lendas relativas à história problemática do profeta nazareno, não tem ele uma polegada de terreno seguro em que se apoiar; não se pode afirmar o contrário, exceto por vias dedutivas. No entanto, ao passo que Renan não tem um único fato solitário para mostrar que Jesus jamais havia estudado os dogmas metafísicos do Budismo e do Parsismo, ou tido conhecimento da filosofia de Platão, seus oponentes têm as melhores razões do mundo para suspeitar o contrário. Quando eles acreditam que - 1ª, todas as suas máximas têm um espírito pitagórico, quando não repetições verbatim; 2ª, seu código de ética é puramente budista; 3ª, seu modo de vida e seus atos são essênios; e 4ª, sua maneira mística de expressão, suas parábolas, e seus hábitos são os de um iniciado, seja grego, caldeu ou mágico (pois os "Perfeitos", que falaram da sabedoria oculta, pertenciam à mesma escola de saber arcaico em todo o mundo), é difícil escapar à conclusão lógica de que ele pertencia ao mesmo corpo de iniciados. É um pobre tributo pago ao Supremo, essa tentativa de impingir-Lher quatro evangelhos, nos quais, contraditórios como são, não há uma única narrativa, sentença ou expressão peculiar, cujo paralelo não possa ser encontrado em alguma doutrina ou filosofia mais antiga. Na verdade, o Todo-Poderoso - não fosse apenas para poupar às gerações futuras a sua atual perplexidade - poderia ter trazido Consigo, em Sua primeira e única encarnação na Terra, algo original - algo que traçasse uma linha distinta de demarcação entre Ele e os numerosos outros deuses encarnados pagãos, que haviam nascidos de virgens, e todos salvadores, mortos ou sacrificados para o bem da Humanidade.
Concessões demais foram feitas ao lado emocional da história. O que o mundo precisa é uma concepção menos exaltada, porém mais fiel, de uma personagem por cuja adoração aproximadamente metade da cristandade destronou o Todo-Poderoso. Não contradizemos o erudito mundialmente famoso, quando em sua Vida de Jesus, aduz com afirmações históricas. Contestamos apenas umas poucas asserções injustificáveis e insustentáveis que o narrador emotivo deixou escapar nas páginas, por outro lado tão belas, de sua obra - uma vida construída sobre meras probabilidades, mas de alguém que, se aceito como personagem histórica, tem maiores direitos ao nosso amor e à nossa veneração, falível como é em toda a sua grandeza, do que se o representamos como um Deus onipotente. É apenas neste último caráter que Jesus pode ser visto por todo espírito reverente como um fracasso.
Não obstante a escassez das obras filosóficas de que agora dispomos, poderíamos apresentar inúmeros exemplos da perfeita identidade entre as máximas pitagóricas, as hindus e as do Novo Testamento. Não há dúvida a esse respeito. O que é necessário é um público cristão que examine o que lhe for mostrado, e que dê seu veredicto de maneira honesta. A fraude já teve sua hora, e cometeu o que havia de pior. "Não devemos nos assustar", diz o Prof. Müller, "se descobrimos traços de verdade cristã, entre os sábios e os legisladores de outras nações."
Após a leitura dos seguintes aforismos filosóficos, quem poderá acreditar que Jesus e Paulo jamais leram os filósofos gregos e indianos?
VERSÍCULOS DO NOVO TESTAMENTO
1. "Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os destroem, e onde os ladrões arrombam e
roubam"(Mateus, VI, 19).
2. "E se tua mão te escandalizar, corta-a; é melhor para ti entrares mutilado para a vida, do que, tendo duas mãos, ir para o inferno", etc. (Marcos, IX,43).
3. Não sabeis que sois um templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?" (1 Coríntios, III,16).
4. "Deste modo vos tornareis filhos de vosso Pai que está no Céu (...) sede perfeitos como o vosso Pai que está no céu é perfeito (Mateus, V, 45-8).
5. "Fazei ao próximo o que desejais que o próximo vos faça."
6. "Ele faz nascer o seu Sol igualmente sobre maus e bons, e cair a chuva sobre justos e injustos" (Mateus, V, 45).
7. "Pois àquele que tem, lhe será dado (...) ao que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado" (Mateus, XIII, 12).
8. "Bem-aventurado os puros de coração, porque verão a Deus" (Mateus, V,
. MÁXIMAS DE SEXTO, O PITAGÓRICO, E DE OUTROS PAGÃOS
1. "Possui apenas as coisas que ninguém te possa roubar."
2. É melhor queimar uma parte do corpo do que deixá-la no estado em que está, assim como é melhor para um homem depravado morrer que viver."
3. "Tendes em vós algo semelhante a Deus: portanto, considerai-vos como o templo de Deus."
4. "A melhor honra que se pode prestar a Deus é conhecê-lo e imitá-lo."
5. "O que não desejo que os homens me façam, eu também não faço para os homens" (Analetos de Confúcio, cap. V, XV; ver Masx Müller, Chips, I, pp. 304 e s.).
6. "A Lua brilha mesmo na casa do Pecador"( Manu).
7. "Dá-se àquele que dão; rouba-se aqueles que roubam" (Ibid.).
8. "Só a pureza da mente permite ver a Deus" (ibid.) - ainda hoje uma máxima popular na Índia.
Platão não escondeu o fato de que extraiu suas melhores doutrinas filosóficas de Pitágoras, e que foi simplesmente o primeiro a reduzi-las a uma ordem sistemática, mesclando-se ocasionalmente com suas próprias especulações metafísicas. Mas o próprio Pitágoras obteve suas recônditas doutrinas, primeiro dos descendentes de Mochus, e depois dos brâmanes da Índia. Ele foi também iniciado nos mistérios dos hierofantes de Tebas, os magi persas e caldeus. Assim, podemos traçar, passo por passo, a origem de muitas de nossas doutrinas na Ásia Menor. Retirai do Cristianismo a personalidade de Jesus, tão sublime graças à sua incomparável simplicidade, e o que resta? A História e a Teologia comparada nos dão a melancólica resposta: "Um esqueleto esfarelado constituído dos mitos pagãos mais antigos"!
Enquanto o nascimento mítico e a vida de Jesus são uma cópia fiel do Krishna bramânico, seu caráter histórico de reformador religioso na Palestina, é o que mais se assemelha a Buddha, na Índia. Em mais de um sentido, sua grande semelhança nas aspirações filantrópicas e espirituais, assim como nas circunstâncias externas, sendo tudo verdadeiramente impressionante. Embora filho de um rei, ao passo que Jesus era apenas um carpinteiro, Buddha não pertencia por nascimento à alta casta dos brâmanes. Como Jesus, ele se sentiu insatisfeito com o espírito dogmático da religião de seu país, a intolerância do clero, sua exibição externa de devoção, e suas cerimônias e orações inúteis. Assim como Buddha rejeitou violentamente as leis e as regras tradicionais dos brâmanes, Jesus declarou guerra contra os fariseus e os orgulhosos saduceus. O que o nazareno fez como conseqüência de seu nascimento e de sua posição humilde, Buddha o fez como uma penitência voluntária. Ele viajava como um mendigo; e - ainda como Jesus -, no curso da vida, procurava de preferência a companhia dos publicanos e dos pecadores. Ambos tinham em mente tanto uma reforma social, como uma reforma religiosa; e, dando o golpe de misericórdia à antiga religião de seus países, ambos se tornaram o fundador de uma nova religião.
"A reforma de Buddha", diz Max Müller, "teve na origem muito mais um caráter social do que uma caráter religioso (...) O elemento mais importante da reforma budista sempre foi o seu código social e moral, não suas teorias metafísicas. Esse código moral (...) é um dos mais perfeitos de que o mundo tem notícia (...) e aquele cujas meditações procuravam libertar a alma do homem da miséria e do medo da morte, libertaram o povo da Índia da servidão degradante de uma tirania sacerdotal." Ademais, o conferencista acrescenta, por outro lado, que, se fosse diferente, "Buddha poderia ter ensinado a filosofia que lhe aprouvesse, e dificilmente lhe teríamos ouvido o nome. O povo não lhe teria notado a existência, e seu sistema cairia como uma gota no oceano da especulação filosófica, pelo qual a Índia tem sido inundada por todos os tempos."
ASPECTOS DA CRUCIFICAÇÃO DE JESUS.
Ocorreu o mesmo com Jesus. Enquanto Fílon, que Renan chama de irmão mais velho de Jesus, Hillel, Shammai e Gamaliel, são raramente mencionados - Jesus tornou-se um Deus! No entanto, puro e divino como era o código moral ensinado por Jesus, ele jamais poderia ser comparado como o de Buddha, não fosse a tragédia do Calvário. O que propiciou a deificação de Jesus foi sua morte dramática, o sacrifício voluntário de sua vida, que foi feito, como se pretende, para o bem da Humanidade, e o posterior dogma conveniente da expiação, inventado pelos cristãos. Na Índia, onde não se dá nenhum valor à vida, a crucificação teria produzido pouco efeito, se algum. Num país em que - como o sabem todos os indianistas - os fanáticos se condenam à morte lenta, em penitência que duram anos; em que as macerações mais terríveis são auto-inflingidas pelos faquires; em que jovens e delicadas viúvas, num espírito de bravata contra o governo, assim como por causa do fanatismo religiosos, sobem à pira funerária como um sorriso nas faces; em que, para citar as palavras do grande conferencista, "os homens na flor da idade se jogam sob o carro de Jaggeernâth, para serem esmagados até a morte pelo ídolo em que acreditam; em que o querelante que não consegue justiça se deixa morrer de fome à porta de seu juiz; em que o filósofo que pensa que aprendeu tudo que este mundo lhe pode ensinar, e que aspira pela absorção na Divindade, se joga tranqüilamente no Ganges, a fim de chegar à outra margem da existência", em tal país, mesmo uma crucificação teria passado despercebida. Na Judéia, e mesmo entre nações mais bravas que os judeus - os romanos e os gregos -, em que todos eram mais ou menos apegados à vida, lutando desesperadamente para conservá-la, o fim trágico do grande reformador deveria ter produzido um profunda impressão. Os nomes de heróis menores como Mucius Scaevola, Horatius Cocles, a mãe dos Gracchi, e outros, chegaram à posteridade; e, durante nossos anos de escola, e mesmo depois na vida, suas histórias despertaram nossa simpatia e granjearam uma reverente admiração. Mas poderemos jamais esquecer o sorriso de desprezo de certos hindus em Benares, quando uma senhora inglesa, esposa de um clérigo, tentou impressioná-los com a grandeza do sacrifício de Jesus, ao dar sua vida para nós. Foi então que pela primeira vez ficamos impressionados com o papel que o grande drama do Calvário exerceu nos eventos subseqüentes da fundação da cristandade. Mesmo o imaginativo Renan foi impelido por esse sentimento a escrever, no último capítulo de sua Vida de Jesus, umas poucas páginas de singular e delicada beleza.
Apolônio, contemporâneo de Jesus de Nazaré, foi, como ele, um entusiasta fundador de uma nova escola espiritual. Talvez menos metafísico e mais prático do que Jesus, menos terno e perfeito em sua natureza, ele, não obstante, inculcou a mesma quintessência de espiritualidade, e as mesmas elevadas verdades morais. Seu grande erro consistiu em confiná-las por demais às classes superiores da sociedade. Enquanto o pobre Jesus pregava "Paz na terra e boa vontade para com os homens", Apolônio era o amigo dos reis, e privava com a aristocracia. Nasceu no seio desta, e era um homem de riqueza, ao passo que o "Filho do Homem", representando o povo, "não tinha onde repousar a cabeça"; não obstante, os dois "fazedores de milagre" exibiam uma impressionante similaridade de propósitos. Já antes de Apolônio havia aparecido Simão, o Mago, denominado "o grande Poder de Deus". Seus "milagres" são mais extraordinários, mais variados e mais bem atestados do que os dos apóstolos ou os do próprio filósofo galileu. O materialismo nega o fato em ambos os casos, mas a história o comprova. Apolônio seguiu a ambos; e quão grandes e renomados foram seus atos miraculosos em comparação como os do pretenso fundador do Cristianismo, conforme afirmam os cabalistas, temos novamente a história e Justino o Mártir, para comprová-lo.
CONSIDERAÇÕES SOBRE BUDDHA, JESUS E APOLÔNIO DE TIANA.
Como Buddha e Jesus, Apolônio foi um intransigente inimigo de toda a ostentação exterior de piedade, de toda a exibição de cerimônias religiosas inúteis e de toda a hipocrisia. Se, como o Salvador cristão, o sábio cristão, o sábio de Tyana tivesse, por preferência, buscado a companhia do pobre e do humilde; e se, ao invés de morrer confortavelmente, e com mais de cem anos de idade, tivesse sido um mártir voluntário, proclamado a verdade divina de uma cruz, seu sangue se teria provado tão eficaz para a subseqüente disseminação das doutrinas espirituais, como o do Messuas cristão.
As calúnias atiradas contra Apolônio foram tão numerosas como falsas. Mesmo dezoito séculos depois da sua morte, ele foi caluniado pelo Bispo Douglas em sua obra contra os milagres. Nisso o justo Rev. Bispo colidiu contra os fatos históricos. Se estudarmos o assunto com um espírito imparcial, percebemos rapidamente que as éticas de Gautama Buddha, Platão, Apolônio, Jesus, Amônio Saccas, e seus discípulos, baseavam-se todas na mesma filosofia mística; que todos reverenciavam um Deus, seja O considerado como o "Pai" da Humanidade, que vive no homem como o homem vive nele, seja como o Incompreensível Princípio Criador; todos viveram vidas sublimes. Amônio, falando de sua filosofia, ensinava que sua escola datava dos dias de Hermes, que trouxe sua sabedoria da Índia. Tratava-se da mesma contemplação mística do iogue: a comunhão do Brahman com seu próprio Eu luminoso - o "Âtman". E esse termo hindu é cabalístico par excellence. O que é o Eu? - pergunta-se no Rig-Veda; "O Eu é o Senhor de todas as coisas (...) todas as coisas estão contidas nesse Eu; todos os eus estão contidos nesse Eu. O próprio Brâhman não é senão Eu", é a resposta. Diz Idrah Rabbah: "Todas as coisas são Ele, e em todas as partes Ele está oculto. O Adão-Cadmo dos cabalistas contém em si todas as almas dos israelitas, e está em todas as lamas", diz o Zohar. Os princípios fundamentais da Escola Eclética eram portanto idênticos às doutrinas dos iogues, os místicos hindus, e do Budismo primitivo dos discípulos de Gautama. E quando Jesus assegurava a seus discípulos que "o espírito da verdade, que o mundo não pode receber porque não O vê, nem O conhece", está com eles e neles, que "estão nEle e Ele neles, ele apenas expunha a mesma doutrina que reconhecemos em toda filosofia digna desse nome.
Saint-Hilaire, o erudito e cético sábio francês, não acredita numa palavra da parte miraculosa da vida de Buddha; não obstante, ele é franco ao dizer que Gautama só é excedido por Cristo na grande pureza de sua ética e de sua moralidade pessoal.
"Não hesito em dizer", assinala Barthélemy Saint-Hilaire, "que, com exceção apenas de Cristo, não há, entre os fundadores de religiões, uma figura mais pura ou mais tocante do que a de Buddha. Sua vida é imaculada. Seu heroísmo constante iguala suas convicções (...) Ele é o modelo perfeito de todas as virtudes que prega; sua abnegação, sua caridade, a doçura inalterável de seu caráter não o abandonam em nenhum momento. Ele abandonou, aos vinte e nove anos, a corte de seu pai para tornar-se um monge e um mendigo (...) e quando morreu nos braços de seus discípulos, foi com a serenidade de um sábio que praticara a virtude por toda a vida, e que morre convencido de ter encontrado a verdade. Esse merecido panegírico não é mais vigoroso do que aquele que o próprio Laboulaye pronunciou, e que despertou a ira de des Mousseaux. "É mais do que difícil", acrescenta este último, "compreender como homens não assistidos pela revelação subiram tão alto e se aproximaram tão perto da verdade". É curioso que haja tantas almas elevadas "não assistidas pela revelação"!
E por que deveríamos nos espantar com o, fato de que Gautama morreu com serenidade filosófica? Como afirmam corretamente os cabalistas: "A morte não existe, e o homem jamais abandona a vida universal. Aqueles que pensamos estarem mortos ainda vivem em nós, assim como nós vivemos neles (...) Quanto mais se vive para os seus semelhantes, menos se deve temer a morte". E, poderíamos acrescentar, aquele que vive para a Humanidade faz muito mais por ela do que aquele que morre.
O Inefável Nome, em busca do qual tantos cabalistas - que não conheciam nenhum adepto oriental, ou mesmo europeu - consumiram em vão seus conhecimentos e suas vidas, repousa latente no coração de todos os homens. Esse nome mirífico que, de acordo com os antigos oráculos, "se lança nos mundos infinitos, pode ser obtido de duas maneiras: pela iniciação regular, e através da "pequena voz" que Elias ouviu na caverna de Horeb, a montanha de Deus. E "quando Elias a ouviu, cobriu o rosto com o manto, e saiu, e pôs-se à entrada da caverna. E veio-lhe uma voz (...)".
Quando Apolônio de Tiana desejava ouvir a "sigilosa voz", ele costumava envolver-se dos pés à cabeça com um manto de fina lã, após ter feito alguns passes magnéticos, e pronunciava, não o "nome", mas uma invocação bem-conhecida de todo adepto. Então, lançava o manto sobre a cabeça, e seu espírito translúcido ou astral se libertava. Nas ocasiões ordinárias, ele não trajava nenhuma veste de lã. A posse da combinação secreta do "nome" conferia ao hierofante o poder supremo sobre qualquer ser, humano ou não, inferior a ele em força de alma. Portanto, quando Max Müller nos fala da "Majestade Oculta" quíxua, que jamais devia ser aberta por mãos humanas, o cabalista compreende perfeitamente qual o sentido da expressão, e não se surpreende ao ouvir a exclamação desse erudito filólogo: "Ignoramos do que se trata!"
Não podemos repetir suficientemente que é apenas através das doutrinas das filosofias mais antigas que se pode entender a religião pregada por Jesus. É através de Pitágoras, Confúcio e Platão que podemos compreender a idéia que subjaz ao termo "Pai" no Novo Testamento. O ideal platônico da Divindade, que ele chama de Deus eterno e invisível, o Criador e Pai de todas as coisas, é o próprio "Pai" de Jesus. Esse Ser Divino de quem o sábio grego diz que não pode ser nem invejoso, nem o criador do mal, pois não pode produzir senão o que é bom e justo, não é com certeza o Jeová mosaico, o "Deus ciumento", mas o Deus de Jesus, que "só é bom". Ele louvou Seu poder divino que a tudo abarca, e Sua onipotência, mas insinua que, por ser imutável, Ele não pode jamais alterar suas leis, i.e., extirpar o mal do mundo através de um milagre. Ele é onisciente, e nada escapa de Seu olhar vigilante. Sua justiça, que descobrimos encarnada na lei da compensação e da retribuição, não deixará um crime sequer sem punição, uma virgula sequer sem recompensa; e portanto declara que o único meio de honrar a Deus é cultivar a pureza moral. Ele rejeita por completo não apenas a idéia antropomórfica de que Deus teria um corpo material, mas rejeita com repulsa as fábulas que atribuem paixões, querelas e crimes de toda sorte aos deuses menores. Ele nega com indignação que Deus Se permite ser propiciado, ou antes subornado, por preces e sacrifícios.
O Fedro de Platão expõe tudo o que o homem foi uma vez, e o que ainda pode vir a ser. "Antes de o espírito do homem cair na sensualidade e nela ser incorporado pela perda de suas asas, ele vivia entre os deuses do mundo aéreo espiritual, onde tudo é verdadeiro e puro". No Timeu, ele diz que "houve um tempo em que a Humanidade não se perpetuava, mas vivia na forma de espíritos puros." No mundo futuro, diz Jesus, "nem eles se casam, nem elas são dadas em casamento", mas "são como os anjos de Deus no Céu".
Quando lemos a verdadeira história de Buddha e do Budismo escrita por Müller, e as entusiásticas opiniões expressas por Barthélemy Saint-Hilarie e Laboulaye, e quando, finalmente, um missionário papal, uma testemunha ocular, e alguém que pode ser acusado de tudo, menos de parcialidade para com os budistas - queremos falar do Abade Huc -, não consegue senão expor a sua admiração pelo elevado caráter individual desses "cultores do demônio", devemos considerar a filosofia de Sâkyamuni como algo mais do que a religião de fetichismo e ateísmo que os católicos nos querem forçar a acreditar. Huc foi um missionário e seu primeiro dever consistia em considerar o Budismo como um rebento do culto de Satã. O pobre Abade Huc foi riscado da lista de missionários em Roma, após a publicação de seu livro de viagens. Isto ilustra quão pouco podemos aprender da verdade sobre as religiões de outros povos através dos missionários, quando seus relatos são preliminarmente revisados pelas autoridades eclesiásticas superiores, e os viajantes severamente punidos por falar a verdade.
Quando Marco Polo perguntou a homens que recebiam, e ainda recebem, a pecha de "ascetas obscenos", em suma, os fieis de certas seitas da Índia, geralmente chamados de "iogues", "se não tinham vergonha de andarem nus como o faziam", eles responderam ao indagador do século XII como o fariam a um missionário do século XIX: "Andamos nus", disseram eles, "porque nus viemos ao mundo, e nada desejamos possuir que seja deste mundo. Ademais, não temos conhecimento de um pecado da carne e, por conseguinte, não temos vergonha de nossa nudez, tal como vós não tendes ao mostrar vossas mãos e vossos rostos. Vós que conheceis os pecados da carne, vós tendes razão em vos envergonhar, e em cobrir vossa nudez".
Titulo: Isis Sem Véu.
Autor: Helena Petrovna Blavatsky.
Nota: Por motivos técnicos não é possível colocar todo o capitulo num só post pelo que a mensagem dupla foi a única solução além da divisão de tópico que iria confundir os usuários dada a continuidade deste.
Continuará em breve, Vol II:
